A Mulher: Sara

     Por: Elisa Costa

Durante a nossa vida adulta, tentamos justificar nossas ações sempre como as mais corretas. Procuramos buscar explicações e aceitações públicas de nós mesmos. Temos a tendência de esquecer a ação conjunta, testar a verdadeira extensão de nossos braços. A procura incessante pelo EU, tem nos afastado do NÓS cada vez mais.

Sara, contemporânea de Jesus, José de Arimatéia, Maria, Madalena (Magdala), Thiago, Maria Jacobina, Maria Salomé e tantos outros, muito antes de ser considerada santa, reforçou as bases conceituais de mulheres simples, se tornando assim “Aquela que escolheu e foi escolhida”.

Muito se fala da santa que venceu os mares, muitos são os contos de milagres atribuídos a ela, entretanto por detrás do mito e da santa se encontra uma mulher cuja trajetória de vida e origem são investigados até hoje, sem que se atente para sua grandiosa estrutura humanitária e política. Se ela desembarcou e foi resgatada por um povo nômade ou se ela já vivia por lá e os acolheu em suas tantas viagens, se era escrava ou princesa egípcia, se era parteira ou a filha de Madalena.

Ela fez e faz parte de um seleto grupo de pessoas que mudaram o rumo da história. Abandonada pela igreja que santifica e adorada por toda uma nação, Sara resiste ao tempo, às guerras, às tiranias, à evolução alucinada e ao desrespeito. Sua proposta continua clara e objetiva: sobreviver física e emocionalmente, a fim de respeitar e ser respeitado. Hoje, viver com toda a plenitude. Reconhecendo o universo em torno de nós. Sara se ergue como esteio de um povo, amiga e companheira em primeiro lugar, e assim voltamos ao velho tema: o reconhecimento entre nós mesmos, entre nós mesmas. O tempo de escutar, de ajudar, de compartilhar e de dividir, saber ser um no meio da multidão. Usar todos os sentidos que recebemos de graça e que fazem parte das características da humanidade.

Mais que santificada, Sara - uma mulher comum, dotada de senso político apurado, em pleno século I. Sara kalí se ergue em meio aos mitos, contos, folclore e superstições permanecendo de pé. Marco de um povo, esteio de uma nação, amiga e companheira de todos os dias, horas e situações.

A Maylê Sara Kalí não discute a riqueza, luta contra a pobreza, para que ela não abra seus ramos e atinja o seu esplendor. O que nos incomoda é o empobrecimento, o enquadramento da cultura afundando num misticismo cada vez mais irresponsável e danoso. Não somos as guardiãs da cultura e nem fazemos questão de ser. Apenas fornecemos linha e agulha para que a grande colcha de retalhos não deixe de ser costurada.

Quando a criação, a vontade de realizar, de ser e de sonhar morrem, perdemos mais do que imaginamos. Perdemos parte de nós mesmas.

Como se mata um povo? Destruindo sua herança, subjugando sua cultura, fingindo não ver, banalizando suas necessidades primárias, matando suas referencias.

Nós nos juntamos às ilustres desconhecidas, mulheres comuns, como tantas que encontramos no caminho. Sara é mais uma santa desconhecida de cada dia, que pelo simples fato de compreender que era preciso fazer algo, fez.
Não se combate a fome, a miséria, a pobreza, o descaso, a depressão de um dia para o outro, mas é preciso que se escolha um dia para deixar de se calar e começar a andar.

24 de maio, o dia de Santa Sara

Peregrinação a Les-Saintes-Maries-de-la-Mèr, França

No Sul da França, entre os rios Grande Ródano e Pequeno Ródano, situa-se alagada planície da Camargue. Essa região, tornou-se célebre pela festa que acontece todos os anos, nos dias 24 e 25 de Maio, na cidadezinha de Les-Saintes-Maries-de-la-Mèr. No dia 24 é a festa de Santa Sara, a padroeira dos romani (ciganos). No dia 25 acontecem as festividades de Santa Maria Jacobina e Santa Maria Salomé, padroeiras da cidade.
As fundadoras da AMSK/Brasil tiveram o privilégio de participar das festividades realizadas no ano de 2011. Momento em que expressaram sua devoção a Santa Sara mantendo a tradição passada de geração a geração, em entregar o lenço de sua família.

Oração à Santa Sara Kalí

Sara, Sara, Sara! Do mar veio vossa vitória.
Teus milagres no mar se sucederam e como santa te tornaste, à beira do mar chegaste e os ciganos te acolheram.
Sara, Sara, Sara!
Como as caravanas passam, no meu interior tudo passará;
A união comigo ficará, teus ensinamentos deixarás, e sentirei o perfume das caravanas que passam, deixando rastros de alecrim, alfazema e mirra...
Corre no céu, corre na terra, corre no mundo; e, Sara, Sara, Sara, sempre na minha frente estarás.
Assim vos peço:
“Sara, fiques sempre na minha frente, sempre atrás de mim, no meu lado direito e no meu lado esquerdo”, pois acima só Deus e Tu, Sara, me ensinarás a caminhar e a perdoar.